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A normalização do sofrimento feminino e o caminho de volta do burnout
Por Gabriela Cunha
Muitas das mulheres que chegam ao meu consultório trazem um relato em comum, embora usem palavras diferentes.
Elas dizem: “Acho que só preciso me organizar melhor” ou “Sempre dei conta de tudo, não sei por que agora estou tão devagar”.
O que elas não percebem — e talvez você também não — é que o sofrimento se tornou “paisagem”. Sabe quando você mora em uma avenida muito barulhenta e, depois de um tempo, deixa de ouvir o barulho dos motores e buzinas? É exatamente isso que acontece com a exaustão feminina.
Trabalhar no limite, dormir mal, carregar a carga mental da casa e sentir que nunca se faz o suficiente é o normal que começa a ser questionado, porém ainda é vivido, na realidade atual.
Neste artigo, vamos entender a diferença clínica entre o estresse e o Burnout, e porque o seu cansaço não é falta de força, mas sim um sinal de alerta do seu corpo.
Quando o sofrimento vira hábito
Você já sabe que a nossa sociedade romantiza o sacrifício feminino. Desde cedo, as mulheres são ensinadas que a sua eficiência é medida pela sua capacidade de servir e de “aguentar o tranco”.
O resultado disto foi uma geração de profissionais brilhantes que perderam a capacidade de identificar a própria dor.
Normalizar este tipo de sofrimento é um mecanismo de defesa que pode ser uma grande armadilha. Quando você aceita que viver exausta faz parte da vida adulta, você deixa de procurar ajuda. Você passa a acreditar que a falha é sua. Então, a sua dificuldade passa a ser uma questão de resiliência e não de um sistema que exige produtividade infinita em um corpo com limites finitos.
Estresse Comum vs. Burnout: A Fronteira Invisível
Depois de cair nas conversas comuns, você já deve ter ouvido alguém falando: “Hoje, estou com burnout”. Mas o Burnout não acontece em um dia. Ele é um processo erosivo.
Critérios Clínicos: O que diz a Ciência?
A Síndrome de Burnout (reconhecida pela OMS na CID-11), baseia-se em três características principais:
1.Exaustão Emocional: a sensação de estar “vazia” ou uma incapacidade de lidar com as demandas emocionais dos outros. Um e-mail simples ou uma pergunta de um colega que antes você conseguia resolver, agora desencadeiam respostas emocionais fora do padrão, parecem até agressões físicas.
2.Despersonalização ou Cinismo: este é um sinal de alerta grave. Você começa a se desligar do que antes importava. Aspectos do trabalho, os clientes ou os colegas saem do seu campo de consideração. É uma tentativa do cérebro de se proteger da sobrecarga: “Não faz diferença se este projeto corre bem ou mal”.
3.Percepção de Baixa Realização Profissional: daqui sai a sua sensação de “fraqueza”. Mesmo que você entregue tudo no prazo, sente que o seu trabalho não tem valor. Há uma perda de confiança na própria competência, o que alimenta o ciclo de ansiedade.
Por que as mulheres são as principais vítimas?
A resposta reside na nossa estrutura social e na história de inserção feminina no mercado de trabalho.
É bem mais comum que sejam as mulheres que precisam lidar com afazeres domésticos, compromissos de cuidado (filhos / pais doentes ou longevos), o que resulta em dupla jornada e na carga mental.
Enquanto o homem, muitas vezes, foca-se na execução, a mulher foca-se na gestão: o que falta na geladeira, o horário da escola, o presente de aniversário, o clima emocional da equipe no trabalho.
Essa vigilância constante mantém o sistema nervoso em estado de alerta nas 24 horas do dia. Assim, você vai desenvolvendo um perfil autoexigente e luta para satisfazer padrões irreais de perfeição.
Quando o corpo grita: os sinais físicos do esgotamento
Se a sua mente ignora o cansaço, o seu corpo assume a responsabilidade de te parar. O Burnout costuma se manifestar através de:
O Caminho da Recuperação: por onde começar?
Sair do Burnout não é uma questão de gestão de tempo, mas de gestão de energia e limites.
1.Reconhecimento: respirar e admitir que a sua preguiça fora do normal pode ser uma doença e não apenas falta de motivação ou comprometimento.
2.Resgate seus limites: aprender a identificar prioridades e a abrir mão de estar presente e desempenhar todas as funções (dentro e fora do trabalho) acima de qualquer padrão mediano.
3.Busque apoio especializado: o burnout mexe com a química cerebral e com o seu comportamento, é interessante que conte com o tratamento certo para evitar que exista avanço para outros quadros de adoecimento mental e físico.