Ambiente tóxico ou crise interna?

Aprenda a distinguir a origem de seu sofrimento

Por Gabriela Cunha

“Será que o problema sou eu?”

Esta é a pergunta que assombra as madrugadas de milhares de profissionais.

Quando o domingo à noite fica triste e pesado, quando o corpo dói antes de ligar o computador e quando a irritação se torna o seu estado emocional padrão, surge a dúvida cruel: É o meu trabalho que é insuportável ou sou eu que perdi o brilho?

Neste universo no qual confundimos sobrecarga com comprometimento e merecimento com dedicação incondicional, distinguir entre um ambiente tóxico e uma crise interna (padrões comportamentais ou exaustão psicológica) é um passo crítico para a busca por ajuda.

Então, se o problema é o ambiente e você tenta resolver apenas “trabalhando a sua mentalidade”, você correrá o risco de se culpar por não aguentar o inaceitável.

Por outro lado, se o problema for um padrão interno, você mudará muitas vezes de cargo, de área ou de empresa e será assombrado pelos mesmos fantasmas, independente do caminho que escolher.  

Neste artigo, vou lhe ensinar algumas dicas para avaliar de onde vem o seu sofrimento e como decidir o seu próximo passo.

Mãos de apoio
Lembre-se que é sempre importante buscar um profissional para apoiar qualquer diagnóstico

Cenário Externo: os sinais inegáveis de um ambiente tóxico

Um ambiente de trabalho tóxico é aquele onde a cultura, as dinâmicas de poder e/ ou a liderança promovem o adoecimento.

Neste caso, não se trata de uma fase difícil ou de um projeto exigente, existe um sistema que é disfuncional.

Seguem alguns indicadores de toxicidade para sua referência:

 

  • Gaslighting Corporativo: você faz questionamentos que considera relevantes e é taxada como “louca”, “sensível demais” , “exagerada” ou “confusa”.
  • Comunicação Violenta ou Passivo-Agressiva: você percebe que os seus erros e dos demais colegas são punidos publicamente e que os feedbacks são depreciativos, tendo pouca intenção construtiva.
  • Expectativa de Disponibilidade Infinita: mesmo que ninguém faça uma cobrança explícita, o normal é responder mensagens às 22h ou se sentir em posição de risco caso tenha se desligado fora do expediente.
  • Cultura do Medo: as pessoas  estão empenhadas em se protegerem, não colaboram, não admitem erros e a culpa é sempre “terceirizada”.

Crise Interna: quando o padrão parece que nos persegue

Se você já fez mudanças ou admite que o ambiente é aceitável, mas o seu sofrimento nunca diminui, pode ser que a sua percepção pessoal esteja contaminada por padrões disfuncionais, que foram aprendidos ao longo da vida.

Sinais de que a origem pode ser interna:

  •  Síndrome do Impostor: você recebe elogios e resultados, mas continua sentindo medo de que alguém identifique uma falta de competência sua.
  • Necessidade de Aprovação Exacerbada: você deixa de negociar limites , pois, talvez, o seu valor pessoal esteja totalmente atrelado à produtividade e ao que os outros pensam.
  • Perfeccionismo Paralisante: você nota que gasta horas numa tarefa que levaria muito menos se fosse realizada por outra pessoa, apenas para garantir que não haja margem para críticas.
  • Repetição de Padrão: você muda de emprego, troca a liderança, até pode ter batido suas asas no empreendedorismo, mas após alguns meses, volta a encarar as mesmas sensações.

 

Atenção! Tente fazer um exercício e verifique se estas sensações desconfortáveis (de não ser suficiente  ou de estar sempre em perigo) já apareceram em outros contextos, inclusive fora do trabalho (na escola, em relações passadas, no curso anterior).

E se eu analisei e percebi que é tudo junto?

Infelizmente, este é um cenário comum. Normalmente uma pessoa que possui hábitos perfeccionistas e sente dificuldade de sinalizar seus limites é o par perfeito para uma liderança autoritária, desorganizada ou intransigente.

Na prática, o ambiente alimenta a sua insegurança e esta não permite que você veja que o problema está lá fora e não nas suas características.

O resultado é que você está sempre se esforçando mais para consertar o que é seu, mas o contexto lhe suga e não resta energia para mais nada.

Calma! Existe luz para iluminar a sua estrada!

Chegou o momento de sair das suposições e dúvidas. Verifique os dados!

Que tal usar os próximos dias para fazer um exercício simples? Comece pelo mapeamento dos momentos em que sente a ansiedade mais forte (aguda) e pergunte-se:

 

  • Será que isto aconteceu por uma cobrança externa ou foi você que alimentou uma lista gigantesca de tarefas, sem nem tentar questionar o prazo ou compartilhar tarefas com quem pode lhe ajudar?
  • Se você nem pensou em dividir suas dificuldades com os responsáveis, você consegue encontrar alguma evidência (um exemplo) de episódio em que você foi repreendido ou punido por buscar apoio?
  • Quando você se ausenta, seja por férias, fins de semana ou feriados, você continua sentindo angústia?
  • Você consegue ter uma agenda de lazer e interações sociais agradáveis fora do seu trabalho?

O momento de procurar ajuda especializada

Se você já identificou que o seu problema está mais ligado ao contexto profissional do que ao seu comportamento, você pode interromper o ciclo de pensamentos de vergonha e culpa.

Agora, se as suas conclusões apontam para uma questão interna, você ganha a oportunidade de se transformar e evoluir.

No entanto, independentemente de seu sofrimento ser explicado por conjunturas culturais, estruturas e organização do trabalho ou por características pessoais, saiba que estes desconfortos não desaparecerão magicamente!

Mesmo que reconheça que trabalhe em um lugar que respeite quem você é, com as suas potencialidades e limites, somente com uma mente equilibrada você focará no que é mais importante e construirá uma vida que vale a pena.

Sentiu que ainda restam dúvidas e, com esta confusão, não sabe o que fazer ou a qual profissional recorrer, saiba que, através de um olhar integrado entre a psicologia clínica e a estratégia de carreira, posso lhe auxiliar nesta descoberta e na definição de qual será a primeira fase deste processo.